Documentarista Wladimir Carvalho é homenageado na abertura do FestNatal 2011

O mais importante documentarista brasileiro vivo foi homenageado hoje (6), na abertura do FestNatal 2011, na sede da Capitania das Artes, com a afixação de uma placa na galeria do Festival de Cinema de Natal. Com 50 anos de trajetória no cinema brasileiro, Wladimir Carvalho junta-se aos atores Grande Otelo, Dercy Gonçalves, Vania Orico, Raul Cortez, Eva Wilma e Ruth de Souza, ao crítico José Carlos Avellar e ao cineasta Nelson Pereira dos Santos.

Emocionado, o diretor de “Rock Brasília – a Era de Ouro” (2011), filme de abertura da 21ª edição do FestNatal, parabenizou a iniciativa da Capitania das Artes e do FestNatal. A disposição de se criar um polo de cinema em Natal – conforme ele – sempre teve seu apoio. Disse que a continuidade do FestNatal sinaliza para o poder público e o empresariado a potencialidade da cidade como polo cinematográfico. “Confesso que é difícil. Não tenho palavras para um gesto tão grandioso em relação a mim e ao meu trabalho. Fico encabulado de pertencer a essa galeria. Eu me sinto em casa, porque sou tabajara e vocês potiguares. Estamos de parabéns”, comentou.

Para o representante da prefeita Micarla de Sousa e presidente da Fundação Cultural Capitania das Artes, Roberto Lima, a Prefeitura presta uma justa homenagem ao cineasta responsável por documentários de significação cultural, social e histórica, como o Evangelho Segundo Teotônio (1984). O presidente do FestNatal, vereador Júlio Protásio, disse que fazer cinema no Nordeste não é fácil, mas o Festival vem resistindo mesmo com dificuldades. Reconheceu que a 21ª edição do FestNatal só está sendo possível graças à Prefeitura de Natal. “Agradeço o esforço da Prefeitura e da Capitania das Artes. Vamos continuar apostando”, assinalou Júlio Protásio. O idealizador e organizador do FestNatal, crítico Valério Andrade, limitou-se a dizer que o Festival foi viabilizado pela Prefeitura e com o apoio institucional do Banco do Nordeste (BNB) e da Potigás.

Outro homenageado do FestNatal será Alfredo Sternheim, critico de renome nacional na imprensa paulista e diretor de cinema.

Na parte da tarde, a programação inicia com a exibição de filmes no cinema Moviecom do Praia Shopping. O primeiro filme em exibição será “Rock Brasília – a Era de Ouro”, que enfoca a trajetória das bandas Capital Inicial, Legião Urbana e Paralamas do Sucesso, entre outras. A programação cinematográfica do Festival, que atende a diferentes públicos, será exibida até o próximo domingo, dia 11.

O FestNatal é realizado em etapas: Vídeo Potiguar, dedicado a curta metragens produzidos no estado; Curta Nordeste, com filmagens realizadas na região; Vidas na Tela, dedicada a longa metragens biográficos e documentários nacionais; e a Seleção de Honra Oficial, com a exibição de longas nacionais de ficção e a presença de artistas. O evento é encerrado com a premiação dos filmes favoritos do júri e do público. Participaram, ainda, da abertura do FestNatal, a vice-presidente da Capitania das Artes, Camila Cascudo; e o presidente do Júri do FestNatal e membro do Conselho Estadual de Cultura, Iaperi Araújo, afora servidores da Funcarte.

Vladimir Carvalho

O cineasta e documentarista paraibano Wladimir Carvalho nasceu em Itabaiana, a 31 de janeiro de 1935. Começou seu curso universitário em João Pessoa, mas transferiu-se para Salvador a fim de ir ao encontro de um dos grandes núcleos do Centro Popular de Cultura (CPC) da União Nacional dos Estudantes (UNE). Frequentando a Universidade Federal da Bahia (UFBA), conheceu Glauber Rocha e integrou o chamado movimento do Cinema Novo, sendo parte da vertente documentarista do movimento, ao mesmo tempo, sendo influenciado e influenciando-o também, com o estilo de sua cinematografia documentária inovadora.

Em 1971, seu longa metragem “O País de São Saruê” foi retirado bruscamente do Festival de Cinema de Brasília pela censura federal. Em sinal de protesto contra tal fato, a comissão de seleção do festival se demite. Houve uma grande celeuma, porque o filme, depois de ter sido selecionado, foi vetado e apreendido pela censura. As autoridades presentes ao festival são vaiadas. “São Saruê” permanecerá apreendido e impedido de ser exibido durante toda a década de 1970. Apesar disto, o filme recebe convites até do Festival de Cannes, sem poder ser apresentado fora do país, porque havia uma únca cópia em película do filme.

Após o triste e autoritário episódio da censura e apreensão do filme “O País de São Saruê”, Vladimir continuou suas atividades, lecionando na Universidade de Brasília (UnB) e filmando outros filmes, mesmo com parcos recursos. Além disso, fundou, em Brasília, a Associação Brasileira de Documentaristas (Seção DF), da qual será, posteriormente, presidente. A associação realizou o primeiro Festival do Filme Brasiliense. Em 1979, com o processo político chamado de Abertura, pela ditadura militar, “O País de São Saruê” é liberado do “cárcere” onde se encontrava e é recebido calorosamente pela crítica e pelo Festival de Brasília, ganhando o prêmio especial do júri.

Na década de 1980, Vladimir filma seus longas “O Homem de Areia” (1981), sobre a vida de José Américo de Almeida, e “O Evangelho Segundo Teotônio”. “Teotônio” ganha a Margarida de Prata e “O Homem de Areia”, o prêmio do Concine (Conselho Nacional de Cinema). Em 1986, Vladimir reativou suas filmagens sobre um tema que lhe foi muito caro: a realidade dos operários que construíram Brasília, os chamados candangos. “Conterrâneos Velhos de Guerra” traz de volta o obscuro episódio de uma chacina de operários ocorrida num acampamento de uma das empreiteiras responsáveis pela construção de Brasília.

Em 1990, “Conterrâneos Velhos de Guerra” surpreende o Festival de Brasília e sai consagrado com muitos prêmios, inclusive o de melhor filme em sua categoria. Como sua primeira apresentação no festival foi em 16mm, o filme, transformado para 35mm, foi reapresentado no encerramento do Festival de Brasília de 1992, com a presença do ministro Antonio Houaiss. Ainda em 1992, Vladimir viaja para a Europa, convidado para ser jurado no Festival Cinéma du Réel, na França, onde “Conterrâneos Velhos de Guerra” é convidado hour-concours.

Vladimir Carvalho ainda cria em 1994 a Fundação Cinememória, mudando-se para uma casa na avenida W3 sul, em Brasília, para onde leva todo o seu acervo. A inauguração da Fundação Cinememória dá-se durante o Festival de Brasília, com o apoio de Luíza Dornas, então Secretária de Cultura. O cineasta italiano Bernardo Bertolucci é um dos assinantes do livro de presença e saúda a iniciativa de Vladimir propondo “entrar para o Cinema Novo brasileiro”.

Em 1998, a Câmara Distrital (o Legislativo do Distrito Federal, um misto de Câmara de Vereadores e Assembleia Legislativa Estadual; por causa da condição de Distrito Federal da capital da República), confere-lhe o título de cidadão honorário de Brasília, pelos serviços prestados à cultura e por sua dedicação à comunidade brasiliense. Ainda neste ano, Vladimir dá início à produção de seu longa metragem “Barra 68”, outro projeto que lhe era muito caro desde que chegou a Brasília. O filme conta as agressões que a Universidade de Brasília sofreu com a ditadura militar e a dura repressão que se seguiu.

“Barra 68” é o filme que inaugura o Festival de Brasília de 2002. Com o prêmio que recebeu pelo filme, Vladimir constrói um pequeno auditório na Fundação Cinememória. Em 2004, por decreto do governo do Distrito Federal, é nomeado embaixador cultural da cidade, junto com outras personalidades.

Em 2005, Vladimir Carvalho começa a filmagem do longa metragem “O Engenho de Zé Lins”, sobre o escritor paraibano José Lins do Rego. No ano 2000 é convidado para presidir a Fundação Astrojildo Pereira , entidade criada com o objetivo de divulgar e incentivar a cultura brasileira, além de preservar a história dos militantes comunistas brasileiros.

Fimografia
Romeiros da Guia – 1962
A Bolandeira – 1967
Vestibular 70 – 1970
O País de São Saruê – 1971
Incelência para um Trem de Ferro – 1972
O Espírito Criador do Povo Brasileiro – 1973
O Itinerário de Niemeyer – 1973
Vila Boa de Goyaz – 1974
Quilombo – 1975
Mutirão – 1975
A Pedra da Riqueza – 1976
Pankararu do Brejo dos Padres – 1977
Brasília Segundo Feldman – 1979
O Homem de Areia – 1982
O Evangelho Segundo Teotônio – 1984
Perseghini – 1984
No Galope da Viola – 1990
A Paisagem Natural – 1991
Conterrâneos Velhos de Guerra – 1991
Negros de Cedro – 1998
Barra 68 – 2000
O Engenho de José Lins do Rego – 2006
Rock Brasília: a era de ouro – 2011

Programação de Filmes para hoje

– Terça (7)
Moviecom Praia Shopping 1 filme: Família Vende Tudo
Horário: 14h00-16h10-18h20-20h30
Moviecom Praia Shopping 3 filme: Rock Brasília
Horário: 14h00-16h20-18h40-21h00

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